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terça-feira, 2 de setembro de 2014
Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher"
Em 1976, numa entrevista, Beauvoir dizia que as mudanças
pelas quais lutara não se realizariam durante a sua vida. "Talvez daqui a
quatro gerações." Que importância tem hoje 'O Segundo Sexo'? Cem anos
depois do seu nascimento, a França ainda se comove com elaPublicado em 1949,
tinha Simone
de Beauvoir 41 anos, 'O Segundo Sexo' viria a ser considerado uma
marca fundamental no pensamento feminista do século XX, abrindo caminhos para a
teorização em torno das desigualdades construídas em função das diferenças
entre os sexos. Composto por dois volumes (Factos e Mitos e A experiência
vivida), o livro debate a situação da mulher, do ponto de vista biológico,
sociológico e psicanalítico, inaugurando problemáticas relativas às instâncias
de poder na sociedade contemporânea e às diferentes formas (tantas vezes conflituais)
de dominação. Reflectindo, pois, sobre as razões históricas e os mitos que
fundaram a sociedade patriarcal e a sustentam e que trataram a mulher como um
"segundo sexo", silenciando-a e relegando-a para um lugar de
subalternidade, Beauvoir irá apontar soluções que visam à igualdade entre os
seres humanos.Fonte de inspiração para autoras como Betty
Friedan, que lhe dedicou o seu já clássico 'The
Feminine Mystique' (1963), 'O Segundo Sexo' antecipa, de forma admirável, o
feminismo da chamada "segunda vaga", que surgiria quase três décadas
depois, com o movimento de libertação das mulheres a desenvolver-se, no final
dos anos 60, a par de outros movimentos sociais de contestação, de carácter
transnacional - as lutas pelos direitos cívicos, os movimentos estudantis, as
preocupações ecossistémicas, a reivindicação, por parte das minorias, de uma
voz e de um lugar que fosse seu. "A disputa durará enquanto os homens e as
mulheres não se reconhecerem como semelhantes, isto é, enquanto se perpetuar a
feminilidade como tal", escrevia Beauvoir. Entendendo
"feminilidade" como uma construção, a teorização de Beauvoir é levada
a cabo a partir da dupla edificação deste conceito dentro do paradigma
patriarcal - o "feminino" como essência e o "feminino" como
código de regras comportamentais.Sexo e géneroAntecipando os movimentos
feministas, Beauvoir antecipa ainda aquela que viria a ser uma das pedras de
toque teóricas para os estudos feministas de raiz anglo-americana: a
apropriação da palavra "género", para significar a construção social
de uma diferença orientada em função da biologia, por oposição a
"sexo", que designaria somente a componente biológica. É a partir da
frase já célebre de O Segundo Sexo "On ne naît pas femme, on le
devient" ("Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres"), que
teóricas feministas como Joan Scott irão, nos anos 80, reflectir sobre o
estabelecimento da diferença entre "sexo" e género ("diferença
sexual socialmente construída"), desafiando e questionando a noção de que
a biologia é determinante para os papéis atribuídos às mulheres e de que existe
uma "essência feminina". Assim, dentro de um quadro conceptual
feminista, a questão proposta por Beauvoir é crucial, visto denunciar o
carácter eminentemente artificial da categoria "mulher": um ser
humano do sexo feminino "não nasce mulher", antes "se torna
mulher", através da aprendizagem e repetição de gestos, posturas e
expressões que lhe são transmitidos ao longo da vida. Só por isto se teria O
Segundo Sexo mantido actual. Surpreendente é que novas teorias, como a teoria
queer, surgida há pouco mais de uma década, emergente dos estudos feministas e
devedora dos estudos gay e lésbicos, revisitem Beauvoir e a sua célebre frase.
Tendo como um dos seus nomes mais marcantes Judith Butler, a teoria queer
assume-se como emancipatória, ao defender que as identidades são criadas pela
repetição de certos actos culturalmente inscritos no corpo. Reagindo às
políticas de identidade, que haviam sido, nas décadas de 70 e 80, fulcrais para
o sucesso das políticas de inclusão social, Judith Butler, e o seus Gender
Trouble (1990) e Undoing Gender (2004), partem desse "On ne naît pas
femme, on le devient", de Beauvoir, para acentuar a ideia de que a
identidade é fluida e instável e de que "género" é um conjunto de
actos performativos. Neste caso, em lugar de se ler "Não nascemos
mulheres, tornamo-nos mulheres", poderia ler-se "Ninguém nasce
mulher, torna-se mulher", ou seja, todos e todas nós aprendemos a
construir identidades a partir de modelos aparentemente matriciais, que se
foram depois cristalizando, mas que são, eles próprios, simulacros. A ênfase é,
pois, colocada na transformação - que, podendo ser limitação, pode igualmente
expandir-se para gesto de liberdade.Em 1976, numa entrevista, Simone de
Beauvoir dizia que as mudanças pelas quais lutara não se realizariam durante a
sua vida. "Talvez daqui a quatro gerações", acrescentava. Para esta
jovem teoria, a lição de Beauvoir coloca-se também num "devir", esse
devenir de que, há quase 50 anos, ela falava. Jovem, outra vez, neste ano que
celebra o centenário do seu nascimento.
Ana Luísa AmaralEscritora, e professora de Literatura
Anglo-Americana e de Estudos Feministas na Faculdade de Letras do Porto
A Natureza Humana e a Política em Aristóteles
Aristóteles analisa o Estado como uma finalidade a ser desenvolvida pelo ser humano. Faz uma análise da sociedade utilizando-se do método analítico, onde considera que o todo é sempre mais importante que a parte. O todo para Aristóteles quando analisa a sociedade civil é o Estado e as partes são a família, as pequenas comunidades e finalmente o indivíduo.
O filósofo acredita que todo ser tem uma potencialidade natural a ser desenvolvida, ou seja, uma finalidade a ser alcançada_ e a existência de todo o ser só tem sentido no desenvolvimento dessa finalidade. Se analisarmos uma árvore ela tem sua finalidade natural, se observarmos a semente ela tem uma finalidade natural, a qual está na sua essência, nasce com ela, que é a de se transformar em árvore e assim por diante. Quando falamos do indivíduo segundo Aristóteles, falamos de um indivíduo que é considerado na sua essência, na sua natureza como um ser que deve desenvolver sua finalidade, a qual é desenvolver a política, a sociedade, o Estado. Um dos pensamentos de Aristóteles que reflete bem essa ideia é encontrado no seu livro A Política: “O homem é um animal social e político”. Isso significa dizer que o homem tem por essência o desenvolvimento natural da sociedade, e não por convenção como muitos outros filósofos acreditam.
Em conformidade com Aristóteles a natureza humana tem por fim; ou seja, por objetivo desenvolver o Estado e quando o indivíduo não desenvolve sua natureza social destoa de sua essência, logo, segundo o filósofo:
[...] é evidente que o Estado é uma criação da natureza e que o homem é, por natureza, um animal político. E aquele que por natureza, e não por mero acidente, não tem cidade, nem Estado, ou é muito mau ou muito bom, ou sub-humano ou super-humano. [...] mas aquele que for incapaz de viver em sociedade, ou que não tiver necessidade disso por não ser autossuficiente, será uma besta ou um Deus, não uma parte do Estado. (ARISTÓTELES, Política, p. 146-147).
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